segunda-feira, 23 de julho de 2007

Passos largos


Passos largos
indefinidos,
intocável semblante.
Corro apressada
vou ter com ninguém,
tropeço nas minhas culpas
e desculpo-me
num desabafo mudo.
Tenho certezas
que a minha incerteza
me oferece.
E,
na agonia
de uma avenida agitada,
troco sorrisos
apenas e só
com a minha sombra.

Hoje


Hoje
vou sair da concha,
    dar asas à loucura
descontrolar palavras
inventando vocábulos
para ser incomoda.

Também hoje
quero ser banida
de templos
dourados
sagrados
divinos.

Ainda hoje,
quero respirar
simplesmente
sem conter
híbridos comportamentos.

Quero ser
mal-educada,
chamar nomes às coisas
sem falsos pudores
nem sorrisos
hipócritas.

Hoje,
vou dormir
vestida de preconceitos
...
porque
amanhã
o juízo
espera-me.

domingo, 22 de julho de 2007

Serpenteio-me


Serpenteio-me de palavras,
sacio vícios bravios,
fomento a clivagem
no ter
no prazer
e renego o ser.
As vibrações
são mortalhas
que envolvem
vontades omissas
momentâneas.

Palavras, promessas
sagradas,
que te dou,
que recebo
serpenteando-me
sempre de medos.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Pulo a cerca da verdade


Pulo a cerca da verdade
esgueiro-me pela noite
questiono confusa
a sombra
a silhueta
de um vento adocicado.
Faço da preguiça
a minha esteira
e escondo a cobardia
num sorriso metálico.
Onde vais?
Não sei...

- Fujo da mentira.

Corri apressada


Corri apressada
para o desencontro.
Ele estava ali,
faz tempo que me esperava.
Tropecei nas esquinas tortas
desta viela inquieta,
perdi o jeito sedutor
de conquistar o impossível,
escorreguei na passerelle
de corpos belos,
produzidos,
pintados de fresco.

- Queria tanto chegar a horas!

Não podia desencontrar-me
novamente do desencontro.
Fazia tempo que o encontro
estava marcado.
Não deveria perdê-lo
mais uma vez.

Era mágico o momento.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Tela púrpura


Pintei-me numa tela
sem pincéis
sem tinta
numa partitura diáfana,
cores mescladas
em colorido apressado,
qual harpa em sinfonia.
Quieta,
docemente quieta,
adormecida
servi de musa
perene
numa cascata angelical.
E, num sono acalentado
entre azuis
e púrpuras cores,
te desejo,
me entrego,
em fingido
abandono.

Falei com a Lua


Falei com a lua
e disse-lhe
que não sabia
o que era o amor.
Falei com as estrelas
e perguntei
como era o amor.
Era branco, era negro,
amarelo ou sem cor?
Falei à noite, ao dia,
ao mar e à terra
e questionei
o que era o amor?
Todos falavam dele,
choravam, pediam por ele...
E eu
que não sabia
o que era o amor?
Se eles eram como eu,
então deveria saber
o que era o amor.
E indagava,
inquiria, arquitectava
mas... nada.
Continuava a não saber
o que era o amor.
Eis que alguém me disse
não se via, sentia-se.
Era fogo, harmonia,
comunhão, dádiva,
sorriso feiticeiro que encanta,
habitava em nós,
era a nossa pele,
o nosso respirar, o soluço,
a lágrima que nos banhava
perfumada e doce.
E eu fiquei muda,
quieta, pensativa.

Pois ...
não sabia que sabia
o que era o amor.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Tive um anel de diamantes



Tive um anel de diamantes
tão belo, tão singular...
Foi-me oferecido
por entidade divina e
usei-o por magia
da vontade
de quem fez o arco-íris.
Os brilhantes
reflectiam cores únicas:
amor, ternura,
dádiva, alegria
partilha, justiça, perdão.
Perdi esse anel mágico
no deserto do ignorado.
Indaguei por ele
a todos com que me atalhei
e... ninguém o tinha visto...

Esses brilhantes
já não eram moda...
Estavam dispersos
no universo dos “loucos”.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Valeu a pena

Valeu a pena
nascer nu
e morrer coberto
de tudo e de nada?

Será que vale a pena?

E eles caminham
tão sós, junto a todos,
tão saturados
da podridão disfarçada
de uma viela escura,
iluminada
de má sorte,
negro xaile envolvente...

Será que vale a pena?

Encobrir o teu rosto
com pinceladas multicores,
disfarce de queixumes,
aguarelas tão misturadas
mas tão nítidas
de cores sem cor.

Será que valeu a pena?

segunda-feira, 16 de julho de 2007

A menina que sonhava

A menina que sonhava
em subir muito alto,
um dia conseguiu.
Ergueu seus olhos para o céu,
suas mãos tocaram noutras
e foi-se elevando.
Vislumbra o paraíso
como algo inatingível.
Agarra as nuvens pela boca
que se derretem em lágrimas
da sua querida mami.

A menina partiu.
Esvoaça pelo céu anilado
com seu vaporoso vestido branco,
olhos bem azuis
salpicados de uma alegria enorme.
E a menina
quer atingir o zénite.
Ela voa
e caminhando pela fonte oriunda
do final da vida
sorri.
Mas o seu sorriso transforma-se
num lacónico soluço
do seu querido papi.

A menina partiu.
Ela desejava partir,
queria tocar com os seus dedos
a estrela final.

E não conseguiu.

musica ** André Sardet

Parti um dia


Parti um dia
sem ninguém saber.
Andei pelo mundo
por ruas enormes,
por cantos perdidos,
por sentimentos celestes.
Banhei meu corpo
em salgado mar
troquei segredos
tremi meus medos
aqueci-me na chama
da sensualidade pura
perfumei-me
no fim de um tarde
em alfazema ou jasmim
e gemi suspiros
de tranquilidade consumada..

domingo, 15 de julho de 2007

musica ** Luis Represas

sábado, 14 de julho de 2007

musica ** Pedro Abrunhosa

Sou ave Ferida

Sou ave ferida
em azul celeste, cinzento.
Penso, mas não existo...
Existo em mim, mas não penso.
Procuro fragmentos de equilíbrio,
prefiro a solidão ao desencontro.
Sou presa fácil
do destino marcado.
Quero, desejo... mas não sinto
esse sabor doce de quimera.
Sou tão somente eu,
sem mais nada, sem protecção.

Nasci do nada
e ao nada hei-de voltar.

Se me queres conhecer

Se me queres conhecer...
rompe as barreiras da indiferença,
destrói as vestes da altivez
e encontra-me.

Se me queres conhecer...
rasga-me, retalha-me,
procura mil chagas no meu corpo
e encontra-me.

Se me queres conhecer...
embriaga-me do teu carinho
ama-me com fúria
e encontra-me.

Remexe artérias e veias
e encontra a razão da minha existência.

Se me desejas conhecer...
deixa que eu te toque
com mil pétalas de bem te quero.

Se me desejas
como eu te desejo tanto,
funde-te em mim,
deixa-me ser tua,
e então conhecer-me-ás.

Não sei


Não sei o que sou,
não sei porque escrevo.
Apenas sinto esta necessidade
de catapultar o pensamento.
Embriago-me de emoções,
converto-as em palavras.
Existo, penso, mas não consigo
a simbiose desta essência.

Signos soltos em cascata
é um limite que não controlo.
Sei do meu limite
e entrelaço-me nesta confusão.
Sou apenas o meu ouvinte
porque ouvintes eu não desejo.

Apenas o querer
transpor o que me falta,
a vida que corre em desencontros.
É este bicho que me possui.
São rabiscos mal escritos
pela sensibilidade.
Sou eu. Não sei ser diferente.

musica ** Manuel Freire

Existências

Existências!

Segmentos de rectas

que se cruzam no espaço

de um existir.

Convergem para outros

pedaços de existências.

E cruzam-se e entrecruzam-se.

Desencontros, linhas paralelas

que nunca se tocam.

E de novo a solidão.

Segmento de recta,

só, simplesmente só,

num universo de segmentos

que declinam o futuro

num impossível encontro.